É muito provável que a maioria dos leitores deste texto reúna duas características: primeiro, que saiba, mais ou menos aprofundadamente, o que é a Missa do Galo; segundo, que nunca tenha ido a nenhuma.
São muitas as vezes em que lamentamos a perda de determinadas tradições, e esta é uma delas, por excelência. Bem, mas não estamos aqui para lamentações e sim para lembrar esta celebração natalícia como cerimónia religiosa e também como ritual comunitário – é, precisamente, esta sua segunda vertente que tende a desaparecer fora das pequenas localidades, ou em sítios onde as pessoas mal conhecem o vizinho do lado. E porque não inverter a tendência?
A Missa do Galo teve origem no ano 400, e é votada à celebração do nascimento do Menino Jesus, que terá ocorrido à meia-noite do dia 24 de Dezembro (quatrocentos anos antes). Por essa razão, esta Missa é celebrada nessa mesma data e a essa mesma hora. O nome que lhe foi atribuído nos países latinos advém de uma lenda antiga, que reza que a primeira vez que se ouviu um galo cantar à meia-noite foi, exactamente, no momento do nascimento de Cristo.
Nalgumas aldeias portuguesas e espanholas era costume levar-se um galo para a igreja. Se este cantasse durante a missa, isso representava o prenúncio de boas colheitas.
Para levarmos a tradição à risca, temos que começar bem cedo. Na manhã de 24 de Dezembro, os rapazes de Miranda do Douro vão apanhar lenha, que depois é transportada em carros de bois até ao adro da Sé. A fogueira, acesa à noite, é um elemento comum a muitas das celebrações pelo país. Simbolicamente, serve para aquecer o Menino Jesus recém-nascido. Na prática, constitui um pretexto para que a população se junte, após a missa, a beber vinho quente ou licores e a trocar votos de Boas Festas.
Enquanto duram os preparativos, a pequenada de Évora corre de porta em porta levando o Cantar do Menino, na esperança de trazer guloseimas no regresso. Já depois da Missa celebrada e do convívio, os ranchos das Beiras vão cantando as Janeiras pelas ruas.
Na Aldeia de Santa Margarida, concelho de Idanha-a-Nova, conhecida como terra dos Fogueteiros, à saída da Missa do Galo a população junta-se em torno do madeiro a arder, para ver subir o balão de ar tradicionalmente oferecido pelos fogueteiros. Os presépios vivos, compostos por cerca de 20 pessoas, costumam ser o ponto alto das comemorações no concelho de Leiria.
O “beijo ao Menino” já não é levado à letra na maior parte dos sítios, embora ainda haja algumas localidades em que as pessoas se alinham, no fim da Missa, para prestar homenagem à imagem do Menino Jesus. O que continua a ser levado à letra são os cânticos, que se prolongam até às ruas, transformando-se em trovas, em Trás-os-Montes, motivo de festa pela noite dentro.
Conforme percorremos o país, encontramos algumas variações nesta tradição, que podem ir da duração da Missa ao carácter mais ou menos pagão das festas que se prolongam até altas horas. Mas o essencial é imutável: celebrar o Natal em alegria e em comunhão.
Ana Marta Ramos 2006-12-06