A lezíria, o rio e o estuário

Turismo ecológico no Estuário do Tejo, um paraíso quase desconhecido às portas de Lisboa

O Estuário do Tejo

Lisboa e o Tejo formam uma simbiose indissociável, impossível de separar. Ao longo dos séculos, a História uniu-os e a cidade foi forjada por causa do rio. Contudo, são poucos os alfacinhas que conhecem a fundo o estuário do Tejo, um paraíso natural que dista apenas a 20 quilómetros da cidade.

É uma massa de água impressionante com 32 000ha de superfície, da qual 60% cobre permanentemente os terrenos que ocupa, ao passo que os restantes 40% integram-se nas zonas entre marés, que ora são rio, ora são lodo.

Sentados à beira rio numa qualquer esplanada no bonito centro histórico de Alcochete, observamos o fenómeno. De manhã, quando o Tejo recuou quilómetros e os barcos ficaram assentes no lodo, torna-se difícil acreditar que seis horas mais tarde aquelas águas serão perfeitamente navegáveis.

Caminhando pelo pontão que irrompe rio adentro, travamos conhecimento com Eduardo Santos, o guia da Ambifuga que nos acompanhará ao longo do dia na visita a esta Reserva Natural. Por nós espera o telescópio já instalado no tripé que nos desafia a espreitar através da potente lente que perscruta o Delta.

Pelo óculo, descobrem-se nuances aquáticas, resultado do cruzamento das correntes e canais fluviais que escoam a água de todas as ribeiras, rios e linhas de água que por ali existem. Para norte, Vila Franca de Xira, onde o Delta começa a ganhar forma através das ilhas de Mouchão do Lombo e Mouchão da Póvoa, que bifurcam as águas que passam. De Alcochete para sul, aproximadamente até quase ao Cais do Sodré, abre-se o Mar da Palha. De pouca profundidade, seis metros em média, é bastante diferente do rio que afunila depois de Cacilhas, onde encontramos a Ponte 25 de Abril. A partir de então, o Tejo afunda, ultrapassando os 30 metros. Curiosamente, nesta zona também se sente a variação das marés. Porém, como o rio está espartilhado entre duas margens, é sempre navegável. O Tejo apresenta elevados níveis de salinidade porque o rio possui menos caudal que o mar, não resistindo à “invasão” quando as marés sobem. Esta particularidade é fundamental na sobrevivência da fauna, não permitindo assim uma grande diversidade das espécies. As poucas plantas que sobrevivem têm processos biológicos para drenar a água salubre de modo a sobreviverem neste ambiente hostil.

À descoberta de um mundo natural

Os campos de vasas de lamas estuarianas são a fonte da cadeia alimentar de diversos consumidores primários como os bivalves. Estes pequenos crustáceos constituem o alimento predilecto de grande parte da população de aves migratórias que por aqui habita. Pelo binóculo observamos as garças reais a esgravatar por entre o lodo em busca de uma apetitosa sobremesa.

Só no estuário do Tejo, os ambientalistas calculam que nos meses de Inverno existam cerca de 100 000 aves migratórias de toda a Europa e do Norte de África inclusive.

As salinas do Samoco e a da Saragoça na Ponta da Erva, são os lugares de eleição de garças, flamingos e outras aves, precisamente por lhes proporcionarem condições naturais excepcionais; ou seja, água.

Ao longe, centena e meia de flamingos lança-se num voo elegante, decidindo mudar de tanque, ou melhor, de salina. Desengonçado, o primeiro lança-se numa corrida descoordenada e começa a voar. Imediatamente é seguido pelo demais. De repente, já são dezenas no ar, em movimentos elegantes e precisos. O espectáculo é bonito.

N'Dalo Rocha 2004-06-29

Receba as melhores oportunidades no seu e-mail
Registe-se agora