A aldeia
As estreitas ruas de Alte revelam uma aldeia que apesar de não ser pequena, resistiu ao turismo desenfreado que assolou o Algarve. Apesar de nos encontrarmos a cerca de 40 quilómetros da costa, respiramos uma atmosfera completamente diferente que as estâncias balneares nos habituaram. Sem sombra de dúvidas aqui estamos no campo, na tranquilidade das estradas quase desertas, observando gente pacata que leva a sua vida num ritmo pausado, talvez pelo clima abrasador no Verão que desaconselha a grandes correrias.
À vista geral, Alte é um aglomerado de casas brancas de telhados vermelhos que se amontoam pela encosta pouco inclinada da serra.
Quando cá estiver, pare o carro e ande a pé. Percorra as calçadas e escadarias que a atravessam e sinta o espírito da aldeia. O posto de turismo pode ser um bom ponto de partida e por debaixo deste, a olaria onde encontramos uma inglesa que faz azulejos à moda de Alte. Paradoxal no mínimo, porém encontramos algumas peças baratas e interessantes para levar de "recuerdo".
Suba as escadas que nos guiam até ao largo da igreja matriz, consagrada a Nossa Senhora da Assunção. Datada do século XIII, foi inicialmente uma capela particular que escapava à jurisdição do Bispo de Silves. Cedo se afirmou como a sede da freguesia de Alte e nem o terramoto de 1755 a fez desmoronar, não obstante dos danos sofridos.
Hoje, apresenta uma decoração rica, a começar pelo revestimento do tecto em azulejos, até aos retábulos dourados do altar, sem esquecer algumas tábuas quinhentistas que encontramos num anexo à igreja, onde está exposto o núcleo museológico.
De volta às ruas, encontramos algum comércio como cafés ou mercearias onde se compra um pouco de tudo. Mas, já lá vão longe os tempos em que homens e mulheres viviam exclusivamente do campo.
Dessa época, lembram-se os mais saudosistas da produção de aguardente de medronho, hoje proibida, do mel ou do queijo. Porém o artesanato subsistiu, talvez por culpa do turismo até, e ainda hoje é possível visitar o polo museológico do esparto, onde nos contam a história e nos mostram os utensílios utilizados pelas mulheres e homens para transformar a planta em cordas.
Durante muito tempo este foi o ganha pão de quase todos. O esparto teve tanto impacto na região que ainda hoje existe a rua dos pisadores em memória de todos aqueles que passam os dias a amassar as fibras com um pilão gigante.
N'Dalo Rocha 2003-05-05