Mouchões e o Porto Palafítico
Assim que Lisboa fica para trás, deixamos de nos cruzar com embarcações de grande porte e barcos de recreio como os iates. A nova vizinhança é mais modesta e navega em saveiros, um barco comprido e estreito bastante comum nestas águas utilizado para travessia do rio e pesca à linha. Esta é gente que entrega a vida ao rio nos afazeres diários. Contornam os mouchões, autênticas ilhas, formadas pela cumulação de aluviões. Estamos no estuário do Tejo onde se observam diversos tipos de aves. O mouchão da Póvoa é um sapal mas os seguintes, de Alhandra e o do Lombo do Tejo, já são cultivados. Para não prejudicarmos as aves que aqui vivem o ano todo, passamos perto mas suficientemente afastados. O maçarico-real voa em bando, a garça-real é inquilina de todo o ano e o corvo marinho mergulhador um suicida aparente pois aguenta vários segundos com o bico debaixo de água sem respirar surgindo, em contrapartida, à superfície com o resultado da pescaria. Cada um safa-se como pode.
Sempre sem parar os motores, avançamos por esse rio fora. Em Santa Iria da Azóia, um cais muito especial é o novo motivo de interesse. Uma paisagem construída de madeira (casas inclusive) e pintada de cores vivas porque para triste muitas vezes já basta a vida de pescador. É a necessidade que desenvolve a arte popular e o porto um exemplo vivo do que se acaba de dizer. Nesta zona as margens do Tejo são baixas e lamacentas e o acesso aos barcos torna-se tarefa impossível na ausência de água. O conjunto dos passadiços que se estendem rio-adentro umas boas dezenas de metros resolvem eficazmente a questão das marés e têm um nome: porto palafítico. Tudo isto para que de um dia para o outro não se vá dar com a barca encalhada. No início era sobretudo no Inverno que vinham os pescadores de Vieira de Leiria tentar a sorte nas tranquilas águas do Tejo. Viviam nos pequenos barcos com os quais retiravam o sustento ao rio, e só mais tarde é que construíram o porto.
Foi precisamente numa embarcação fora de água e debaixo de uma palmeira que nasceu há 45 anos atrás o arrais José Sequeira. Com pais e avós pescadores, a pesca surgiu com tanta naturalidade que nem questiona o labor que até hoje executa com muito orgulho. Actualmente vive no porto palafítico e quando sabe que a mulher está em casa não hesita em ligar-lhe para o telemóvel a avisar que vai a passar. Os filhos acompanham a mãe na curta visita que demora o tempo que o barco leva a passar.
Outros motivos de interesse
A uma velocidade média de 6 milhas não é preciso grande atenção para se descobrirem pormenores interessantes, como uma pista de reparação de aviões comerciais e alguns hangares quase tapados na totalidade pelos caniçais que povoam as margens do rio. A auto-estrada do norte parece a dada altura mais próxima do que realmente está e a linha do comboio está mais perto do que parece. Unidades fabris são algumas, contando com as que já se extinguiram na actividade mas não na existência física, tornando-se autênticas carcaças de cimento com vidros partidos.
Daqui ainda se vê a palmeira debaixo da qual nasceu o arrais. “Um bocadinho daquela árvore pertence-me”, conta com uma legitimidade que lhe sai do íntimo. E ali está Alhandra com a igreja altaneira e logo depois Vila Franca de Xira que se nota pela aproximação da praça de touros e do cemitério que na encosta fronteiriça ao templo dos touros destoa a paisagem.
Ao destino chegámos para passearmos pelo jardim municipal enquanto o mestre prepara o almoço. O parque é pequeno e o passeio rápido até porque a panela de tamanho familiar que ficou no barco já nos manteve cativos. E em boa hora, porque a massada de peixe que o nosso anfitrião preparou estava um primor. Das melhores que provámos mesmo em restaurantes de peixe. São os 65 anos de experiência de vida, grande parte deles passados por esse mundo fora a bordo de cruzeiros e à pesca do bacalhau nos mares do norte que lhe ensinaram os sabores doces e outros bem mais amargos que ainda hoje recorda. Um homem de surpresas apaixonado pela vida e pela mota que o transformou em motard convicto, daqueles que vai a concentrações e tudo.
De montante para jusante todos os santos ajudam, por isso demora-se menos tempo. Lisboa continua na sua corrida alucinante, mas isso nada nos diz. Ainda chegamos a tempo de ver o Pôr do Sol do rio. Uma outra forma de vermos o tantas vezes visto numa homenagem mais do que merecida ao Tejo.
Paula Oliveira Silva 2003-03-24