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Roteiro mineiro de Aljustrel

Do silêncio das máquinas ao cante dos homens

Vila de muitas vidas, Aljustrel nasceu, cresceu e renasceu à custa das entranhas da terra mas manteve sempre a identidade mineira que ajudou a preservar um vasto património industrial e arqueológico. Por estar em funcionamento, a atual exploração não é visitável mas os equipamentos desativados podem ser descobertos a céu aberto, entre crateras e paisagens lunares, chapéus de ferro e malacates. O Lifecooler foi explorar este filão e conta-lhe tudo ao som dos mineiros da terra.

Aljustrel ainda não se chamava Aljustrel e já o interior daquelas terras era revolvido por milhares de romanos que por lá fundaram a cidade de Vipasca, transformando-a num dos principais centros de exploração de minério do sudoeste peninsular. Do século III ao XIX o subsolo manteve-se intocável mas a Revolução Industrial trouxe os mineiros de volta e por lá continuaram até hoje, ainda que a laboração estivesse suspensa entre 1993 e 2008. A recente valorização do cobre trouxe-lhe uma nova vida, mas a eterna pergunta continua no ar: Até quando darão as reservas da mina?

Mesmo incerta, a resposta é dolorosa (a rentabilidade económica pode esgotar-se numa geração) por isso as gentes da terra já começaram a preparar o futuro e o turismo faz parte dele. Afinal, a vila conserva um raro e valioso espólio industrial e arqueológico que atrai cada vez mais curiosos. Enquanto não surgir o futuro Parque Mineiro, projeto com percursos pedestres e descidas a uma galeria subterrânea, a melhor solução é contactar o posto de turismo da vila e marcar uma das suas visitas gratuitas e personalizadas.

O guia António Campos promete dar a conhecer não só o património material, como os malacates (elevadores), as chaminés ou as locomotivas, mas também o imaterial, levando os visitantes até aos locais mais emblemáticos da identidade local, como os bairros mineiros, as tascas ou o sindicato dos mineiros. Se a sua visita for a uma sexta-feira peça para assistir ao ensaio do Grupo Coral dos Mineiros de Aljustrel, pioneiro no cante alentejano e símbolo máximo da alma mineira.

História, luta e fé

A melhor forma de conhecer as sete vidas de Aljustrel é visitando o Museu Municipal, situado na zona antiga da vila, a dois passos da igreja matriz. Dividido em vários núcleos (Pré-história, Geologia, Mineração, Vida Quotidiana e Morte e Religião) exibe várias amostras geológicas e algumas das mais importantes peças arqueológicas encontradas no concelho (do Paleolítico à Idade Média), como machados de pedra polida, representações de animais ou joias da Idade do Ferro.

Porque a história mineira destas paragens começou a ganhar significado com os romanos, o espaço dedicou-lhes uma sala inteira, com destaque para as réplicas das famosas tábuas de bronze de Aljustrel, únicas no mundo, onde estão inscritas as leis de exploração do cobre e da prata impostas pelo Imperador. Simbólica é também a foto que evoca a greve de 1922, protesto de vários meses que obrigou os mineiros a entregarem (provisoriamente) os filhos a famílias operárias de vários pontos do país.

Depois de conhecida a história da exploração mineira é altura de descobrir a sua dimensão geográfica por isso nada melhor que subir ao miradouro de Nossa Senhora do Castelo, com vistas de 360 graus para a região envolvente. Por aqui se percebe que as minas cercam toda a vila e dominam a paisagem em redor, num claro contraste entre o branco do casario e o negro do pó mineiro que se entranhou à superfície e… nos pulmões dos trabalhadores. Sacrificada a saúde, vale-lhes a fé, expressa por exemplo na ermida ali ao lado onde, diz o povo, está uma rocha que serve de tampão ao mar que corre debaixo da vila. Se alguma vez for retirada, Aljustrel ficará alagada para sempre…

Gigantes de ferro entre paisagens lunares

Segue-se uma visita à antiga Central de Compressores, núcleo de arqueologia industrial situado na mina de Algares, que em tempos serviu para transformar a energia utilizada no interior das minas. Junto a ela fica um chapéu de ferro, espécie de monte à superfície composto por minério maciço oxidado, que vai sendo cortado transversalmente como se fosse um bolo. Os fãs dos Xutos e Pontapés talvez se recordem deste local, utilizado como cenário de um videoclip do grupo, mas os historiadores preferem destacar o poço romano que um dos cortes mais recentes deixou a descoberto.

A menos de um quilómetro dali fica um dos símbolos das minas de Aljustrel – o Malacate Vipasca -, enorme elevador de ferro outrora utilizado para transportar os mineiros até ao interior da terra. Hoje mais parece uma sentinela de ferro que vai resistindo ao tempo, indiferente ao silêncio e ao abandono que agora domina estas paragens. Não muito longe está outro malacate (Viana), este rodeado por um terreno ainda mais estéril e que, por vezes, faz lembrar a paisagem lunar. É lá que ficam as chamadas escombreiras, nome herdado dos restos (ou escombros) de minério que se foram acumulando.

Entrando por um caminho de terra chega-se rapidamente até outro vestígio da presença romana – a casa do procurador – vizinha da grande chaminé da Transtagana, cuja origem não é consensual. Muitos acreditam que aproveitava os gases libertados pela queima da pirite mas que a elevada toxicidade deste processo obrigou a transferir o tratamento do minério para outro ponto mais isolado: o Monte das Pedras Brancas. O local merece uma visita mas o caminho é pouco amigo dos automóveis, sobretudo quando chove, por isso nem sempre vale a pena fazer os 10 quilómetros que o separam da vila de Aljustrel.

O cante alentejano como hino mineiro

Quem quiser descobrir a verdadeira alma aljustrelense não deve deixar de conhecer um dos vários bairros mineiros da vila. Em Val D`Oca, por exemplo, todos os caminhos vão dar à tasca/café da Bia Rainha, palco de tantas histórias e conversas que, volta não volta, lá vão parar aos tempos da resistência anti-fascista, à dureza do campo ou à “vida no buraco”. E o mesmo acontece com o cante alentejano do Grupo Coral do Sindicato dos Mineiros, cujos ensaios às sextas-feiras estão abertos (mediante aviso prévio) a visitantes. Melhor ponto final para o nosso passeio seria impossível. Poucas terras, como estas, se descodificam tão bem pelas letras de um punhado de músicas. 


Roteiro Mineiro de Aljustrel

Morada: Av. 1º de Maio – Aljustrel (Posto de Turismo)
Telf.: 284 601 010
www.mun-aljustrel.pt

Preço: Visita gratuita (marcação no Posto de Turismo)

Distância de Lisboa: 165 Km
Percurso recomendado: A2, IP3, N361
Custo das portagens: 12.00 €

Distância do Porto: 434 km
Percurso recomendado: A1, A13, A2, IP3, N361
Custos das portagens: 33.45 €