PORTUGAL FAZ-LHE BEM

Museu da Farmácia - Lisboa

Há um remédio para tudo

A história da saúde em Portugal e no Mundo é contada com a ajuda de 15 mil peças de diversas épocas e proveniências. Faianças e almofarizes, remédios secretos, medicamentos do Espaço e até um sarcófago mostram como o Homem foi tentando curar as doenças e maleitas ao longo dos anos. Neste museu há de tudo… como na farmácia.

Desde 1996, que o Museu da Farmácia, em Lisboa, propõe uma viagem de 5000 mil anos pela História. Este espaço recua até às origens da Humanidade para mostrar que a procura da saúde é tão antiga como a própria civilização e que esta preocupação foi sempre transversal a todos os povos. A melhor forma de ter uma perspetiva histórica é iniciando a visita pelo núcleo do primeiro andar - A Farmácia no Mundo – onde se lembra que os homens das cavernas já aproveitavam as plantas medicinais para sarar feridas e resolver outros problemas de origem desconhecida. Um salto no tempo leva-nos depois até ao Antigo Egito e ao sarcófago de Irtierut (o mais antigo em Portugal), simbolo da crença na vida para lá da morte. 

Seguem-se outras civilizações, como a Mesopotâmia, a Suméria e a Babilónia, de onde chegaram vários objetos curiosos, como uma receita à base de cerveja medicinal ou um amuleto em ouro para afastar maldições. Com a Grécia Antiga, a doença passou a ser encarada de forma mais racional e durante o Império Romano as profissões medicas (cirurgião, médico e farmacêutico) começaram a ser diferenciadas, ainda que sujeitas ao poder maior dos deuses, como Esculápio, o pai da medicina, ou Higéia, deusa da farmácia. Nessa época criava-se também uma espécie de loção mágica para a força e energia criada a partir do suor de gladiadores e atletas.

Noutras latitudes, os maias, incas e aztecas forçavam o vómito para expulsar as doenças do corpo e realizavam sacrifícios humanos (o Sol precisava de sangue para nascer), como mostram as imagens de alguns vasos e estátuas em exposição no museu. A dois passos dali recorda-se a arte tibetana de curar (precursora da medicina chinesa e japonesa) e os avanços científicos do mundo islâmico durante a Idade Média, bem mais avançado que a Europa. Por cá a fé ditava leis e recorria-se a “medicamentos” tão inusitados como raspas de pó de unicórnio, olhos de caranguejo, pedra de meteorito ou bolas de cabelo que se formavam no estômago das cabras. Já na época dos Descobrimentos tudo se tratava com sangrias, clisteres, sanguessugas, ventosas e afins. Dessa época, o museu guarda também uma Pedra de Goa, medicamento criado pelos jesuítas portugueses na Índia que se julgava ser a chave da eternidade.

Com o aparecimento dos microscópios, no século XVII, descobriu-se a célula humana e percebeu-se que há mais vida para lá do observável à vista desarmada. Pasteur, melhor que ninguém, viria a demonstrá-lo mais tarde, já no século XIX, época em que surgiram também a anestesia e as vacinas. Já no início do século XX dá-se a descoberta da penicilina (fundamental para o avanço dos antibióticos), evocada na peça mais importante do Museu da Farmácia: uma cultura de penicilina do próprio cientista inglês Alexander Fleming. Mais recentemente surge a pílula anticoncepcional e o DNA, bem como novos avanços nas áreas do cancro e da SIDA. Estarão a caminho os medicamentos do século XXI? Se assim for, o Museu da Farmácia fará questão de o lembrar.

De Portugal para o Espaço

Enquanto o primeiro andar oferece uma perspetiva mais global do mundo da saúde, o piso térreo é dedicado à evolução da farmácia portuguesa desde o final do século XV. Logo à entrada, apresenta-se uma farmácia conventual que começou por pertencer ao Mosteiro de Paço de Sousa (Penafiel) e depois foi comprada por um farmacêutico local. Aqui, os medicamentos eram conservados em vasos de faiança e alguns continham partes de crocodilo (unhas, dentes, pele, etc.) como lembra a presença no museu de um destes animais (embalsamado). Seguem-se mais duas farmácias, uma do século XIX  e a outra do século XX – a Farmácia Liberal – que em tempos funcionou na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Aqui, os medicamentos já são vendidos lado a lado com pastas de dentes, perfumes e papas, como se percebe pela publicidade ao Bebé Nestlé.

Em frente, duas fotos a preto e branco mostram as primeiras mulheres a entrarem nos cursos de farmácia de Lisboa e Porto (1910 e 1920, respetivamente) e depois mostra-se um laboratório antigo, onde já se utilizavam os compressores de pastilhas que estiveram na origem do termo comprimido. Depois do laboratório de análises estão em exposição alguns dos medicamentos mais famosos no século passado, como o óleo de fígado de bacalhau ou o xarope peitoral James, feito na Farmácia Franco, de Belém. A mesma onde em 1910 foram aprovados os estatutos do Sport Lisboa e Benfica. Sim, o clube das águias nasceu numa farmácia.

Segue-se outro dos ex-líbris do museu, uma farmácia tradicional chinesa trazida peça a peça de Macau, especializada em pós, pílulas e gotas oftálmicas. Depois de serem consultados (num gabinete vizinho) os pacientes entregavam a receita e esperavam que o farmacêutico preparasse ali mesmo os medicamentos. Muitos continham (e ainda contêm) plantas e animais, como peixe balão, cobra capelo e tubarão. Ali ao lado, descobrem-se cartazes publicitários da medicina tradicional chinesa e de medicamentos dos séculos XIX e XX utilizados em Portugal, como o Ferroquinol ou o Vick Vaporhub.

Curiosamente, o final da nossa visita aconteceu junto à entrada do museu, onde existe uma área dedicada às odisseias espaciais do Homem. Aqui, é possível ver uma farmácia portátil da NASA, medicamentos utilizados na secção russa da Estação Espacial Internacional e até chá verde dos Açores e hipericão do Gerês que estiveram a bordo do vaivém Endeavour, em 2000. Do Espaço para Lisboa foi um pequeno passo para o Homem mas um grande passo para o Museu da Farmácia que, agora, exibe orgulhosamente estas e outras peças de um espólio valioso.

Museu da Farmácia - Lisboa

Morada: Rua Marechal Saldanha, 1, Lisboa
Tel.: 213 400 600
www.museudafarmacia.pt

Preço do bilhete: 5€ (adulto)
Distância do Porto: 320 Km
Percurso recomendado: A1
Custo da portagem: 21.25€